Pandêmico: Coração Devedor

Nasci num bairro vasto que já foi pasto. Onde aos poucos o povo foi ocupando, para lá se mudando. Antes de mim lutaram muito por direitos: moradia, saneamento, asfalto, hospital, educação, biblioteca, transporte, alimentos. Um lugar onde a política e a mídia foram os últimos a chegar. Nasci numa periferia que demorou para ser chamada de lar. E tenho apenas trinta e dois anos de vida. Mas me dói ver numa quebrada ‘evoluída’, gente que apoia fascista que nesta mesma gente pisa. Me dói ver os ponto de ônibus lotado por gente batalhadora que vota nos Dória helicópterousado. Dói ver meu povo trabalhador votar num fascista fazedor de robô. E não posso nem julgar o atraso nisso tudo, pois tive uma mãe branca que contribuiu como pôde para bancar meus estudo, aos trancos e barrancos ela se responsabilizou. Lembro de colegas que nem mãe tinham, quanto mais valor de um professor. Um dia, numa aula de biologia, a professora mandou abrir o livro, muitos de nós nem tinha: “Porra, numa escola pública, pagar por material é súplica…”. Fazer trabalho em dois é boi, em três é uma furada! …Sempre ficava de fora, não era bom exemplo na escola de esquema dita dura; eu era uma bixa pobre ao relento, que não abaixava a cabela fácil pro tormento; fiquei de várias recuperação, e janeiro era sem recreio; ia de cabeça erguida porque quase nem tinha gente no meio, da sala. Pelo menos eu respeitava as professora, que tinham para mim o mesmo valor que uma doutora, vai ver por isso nunca repeti de ano; meu bom dia, minha gratidão e meu perdão sempre me passaram pano! Mulher na minha vida é a maior verdade: Minha mãe umbandista; meu pai suicida; meu avô um racista; e o mundo um vigarista que tentou me esconder de minhas próprias vistas.
Deus é uma irmã negra que teve piedade: me mostrou Caetano, Timbalada, Daniela Mercury, Marisa de verdade e também Ivete… tive aula de axés! Vi e ouvi o maracatu em ‘A Indomada’ quando pivete, e ainda menino, em Zazá, me apaixonei pela voz Fullgás de Marina, antes de saber quem era ela; foi numa música de novela. Eu nem sabia o que era arte! Aos 10 anos de idade, arte, para mim, era o que Ivone fazia: Me ensinou a ler nas pichações da cidade-aldeia. São Paulo é mata que incendeia. Cada vez mais cheia, os morros morrem nas mãos da polícia que a faz de recheio da ceia natalina.

É tempo de ano novo: pandemia fez de dois mil e vinte um mundo ciclo renovo; não dá pra ser o mesmo neste ovo; é preciso amor pela rebeldia e assim sairmos ilesos; nós, que somos cria da periferia, temos que nos unir aos indígenas coesos; à força da nossa ancestralidade ligada e conectada aos estupros de nossas bisavós, caladas, que hoje gritam em energias latentes no nosso peito aceso.
Não seremos frágeis leitos mortos pela polimilícia de um estado estuprado procriado sangrento.

Devemos fogo no fascismo racismo preconceito.

 

Diego Rbor

Segredo

Já tive vergonha de dizer que sou da favela
Já tive vergonha de me aceitar e respeitar como gay
Tive vergonha de dizer o quanto sentia fome
Tive vergonha de afirmar que pra religião eu caguei

Vergonha do meu vocabulário
e da minha voz estranha pra caralho

Senti vergonha até da minha vergonha
e de escrever cartas de amor para quem amo

Já tive vergonha dos meus antepassados Continue lendo “Segredo”

laicolorido

“Nosso Brasil laico precisa saber: Saraus são mais honestos que muitas Igrejas! O Sarau é o culto divino confiável, acolhedor e libertário para o Ser que almeja evolução espiritual. Para malhar o corpo, exercícios físicos diários; para mantê-lo, alimentação de qualidade; para eternizá-lo, faça arte.”

 

Diego Rbor

Só Os Coxinhas

Marina Lima é uma das artistas mais importantes do mundo. Compositora e cantora, ela produz as suas obras criando a própria sonoridade e tocando instrumentos arranjando harmonias e desenvolvendo a sua música, para todos nós.

Não se encaixa em algum gênero musical específico. É de todos os ritmos! (Só que da maneira mais chic que um ser humano pode fazer.)

Marina nunca parou. [Todo artista precisa de tempo para criar.] E ela retomou agora, depois do inédito repertório em Climax, com todo vapor, cheia de fôlego na força pra continuar essa missão de melhorar as vidas e os lugares através da arte, com o poder do seu dom. Seu tom. Seu som!

Novas famílias é o novo trampo dela, que tem até música de favela! De Treme Chão a Samba e muito mais nas grandiosas nove faixas imortais.  Continue lendo “Só Os Coxinhas”