Maria José, minha avó!

Hoje é dia dos avós e senti vontade de escrever um pouco sobre a minha relação com a querida avó Maria, a única mais ligada a mim.

Saudade sinto de minha avó
Ativa, baiana, sou sua cara
Um dia me contou histórias
De seu melhor amigo macaco prego
Andava a cavalo com ela
Deixou ele para vir pra SP
E pouco foi feliz aqui
Sorria timidamente, ela

Sempre curti visitar meus avós, a alegria quando ela nos avistava descendo a rua chegando até sua casa, motivava corridas ligeiras ladeira abaixo, rumo ao abraço.
Depois da adolescência, comecei a negar as minhas idas até lá; passei a achar longe, e telefonava para compensar a ausência e aos poucos foram se tornando raras as vezes no ano em que eu a visitava, então ela começou a ir me visitar.

No abraço demorado, o carinho apertado; era um dos melhores programas da vida passar o final de semana na companhia deles, que mensalmente iam até Taipas para abraçar eu, minha mãe e meus dois irmãos.

Os meses ficaram mais longos quando eles deixaram de nos visitar. Minha avó comentou por telefone de uma queda que meu avô teve na rua, isto apertou muito o meu coração. Passei a visitá-los novamente com frequência.

Mas um dia ele passou mal, foi internado. Um tempo depois, faleceu.
Estavam há 56 anos casados.
Minha avó lutou contra a solidão, teve um AVC e parte de seu corpo ficou imóvel.

A pedido da minha mãe, topou ir morar conosco. Ficamos vizinhos por um andar; ela no térreo, com a minha mãe e irmão, eu em cima com minha irmã e os cachorros. Pude me aproximar ainda mais de minha avó. Tomávamos café da manhã juntos diariamente, ao chegar tarde da noite, da faculdade, sempre passava em sua casa para saber como desenrolou o dia. Quando ela já estava dormindo, eu beijava o seu rosto e subia pra casa.

Fiquei sem trabalho durante 4 meses e cuidei de minha avó; levantava-a da cama para acessar os cômodos, cozinhava para ela os pratos que gostava, assistia as novelas e comentávamos, indignados, sobre o enredo das tramas artísticas que imitavam a vida. E enquanto ela organizava a gaveta de meias, me contava histórias sobre sua infância. Uma destas histórias é a do seu melhor amigo macaco prego, que andava a cavalo com ela, na Bahia.

Minha avó gostava de plantas, e eu amo as plantas.
Um dia li na internet o poder das plantas e comentei dos milagres que as ervas são capazes de proporcionar ao corpo humano. Eu já seguia a kabbalah e decidi unir a tecnologia da mente com a medicina natural. Minha avó embarcou comigo nessa sabedoria. Colhi a babosa, fomos pra lavanderia: Ela sentada numa cadeira e eu sentado no chão, ergui a sua perna inerte sobre as minhas e comecei a massageá-la, de olhos fechados, meditando os melhores sentimentos. Ao abrir os olhos num determinado momento, vi que minha avó estava com os olhos fechados, continuei a massagear, emanando Luz para aquela guerreira que eu tanto amava.
Após dias e dias massageando e meditando, certa tarde ela gritou e eu tomei um susto! Gritou de alegria comemorando a sensação de mover o próprio pé, que estava paralisado desde o AVC. Vibramos, felizes! Levamos a arte da cura mais a sério, ela melhorava aos poucos, inclusive conseguia andar sozinha!

Foi a minha primeira revelação do quanto a fé pode influenciar na vida. E não falo da fé religiosa, e sim da fé espiritual.

Após meses contribuindo para os cuidados de minha avó, voltei a procurar um trabalho e consegui. Minha mãe contratou uma amiga dela para continuar os cuidados e então a nossa rotina mudou. Minha avó insistiu em voltar a morar na antiga casa, onde viveu com meu avô. Nos desaproximamos novamente no decorrer dos meses.

Eu achava que o emprego era mais importante que tudo, faltei em vários aniversários. O sistema é bruto e tenta nos tornar assim.

Um dia, no trabalho, recebi um telefonema: era minha tia dizendo para eu ir no hospital Mandaqui visitar minha avó, que havia sido internada. Saí correndo ao seu encontro. Várias lembranças no trajeto do ônibus que mais parecia um navio, de tão demorado!

Chegando no quarto do hospital, fiquei despedaçado com a situação em que vi minha avó, inconsciente, com a boca seca, olhar turvo; tentava me dizer algo e não conseguia. Fui atrás de um algodão e molhei com água a sua boca, para hidratá-la. A enfermeira pediu que eu me retirasse, pois ‘o horário de visita terminou’.

Na volta pra casa recebi outro telefonema, informando a sua partida. Não consigo expressar o tamanho da dor que eu senti.

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Três fatos que guardo com carinho:

As páscoas que meus avós chegavam em casa com os ovos de chocolate mais simples que tinham nos armazéns, eram os mais saborosos na época.

Um dia, olhando o seu RG, notei que no lugar da assinatura estava escrito em letra maiúscula a palavra ANALFABETA. E a questionei, “como uma pessoa tão sabida e inteligente poderia ser chamada de analfabeta?”. Ela riu. Meses depois se matriculou numa escola perto de sua casa e começou a estudar, aos quase 70 anos.

Eu era adolescente, já trabalhava, e fui passar um fim de semana com ela e meu avô. Numa segunda-feira bem cedo, acordei para me preparar pro trabalho, ela acordou para preparar o café, meu avô dormia. Antes deu sair pro trabalho, sentei com ela para tomar o café. Agradeci e quando olhei em seus olhos os vi marejados, ela abaixou a cabeça e uma gota caiu em seu colo. O aperto em meu peito torceu-me os olhos a marejar igualmente. Nos observamos sem conseguir dizer uma só palavra. Na noite anterior eu descobria que fui adotado, após receber o telefonema de uma prima que não gostava de mim. Eu não contei pra ninguém sobre o telefonema, foi como se ela sentisse que algo estava errado. Me despedi e tomei meu rumo. Sentei no banco do ônibus e desabei a chorar.

Vó Maria tinha uma risada gostosa. Adorava fazê-la rir porque eu achava que ela sorria pouco.
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Onde quer que você esteja, minha vó, sinto-te perto e amo te amar e lembrar do que vivemos.

Com amor,

Diego Rbor

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Vó Maria e eu, 2010

11 comentários em “Maria José, minha avó!

  1. Diego Rbor, meu querido amigo… ao ler seu texto me deu saudades daquilo que não tive! Meus avós maternos e paternos morreram quando ainda era pequeno. Devido a família grande e a distância, não pude conhecê-los. Tive que adotar os avós de meus amigos. A emoção transbordou de tuas palavras na forma de uma lágrima aqui no meu rosto… e tenho certeza de que sua avó brilha intensamente de amor na forma de uma estrela em resposta a este carinho todo! Parabéns pela bela homenagem… que sua semana seja de luz e produtiva! Um forte abraço

    Curtido por 1 pessoa

      1. Fico imensamente feliz com suas palavras Diego… pode ter certeza disto! Acredito que as palavras tem o poder de iluminar, bendizer, quando bem direcionadas… assim como também acredito que somos os sonhos dos nossos ancestrais! Se me permite, vou dedicar esta poesia https://panografias.com.br/a-palavra/ na forma de gratidão (esta reverberando toda esta energia aqui também) Obrigado meu caro amigo… que sua noite seja abençoada! Outro grande abraço

        Curtido por 1 pessoa

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