Livro Sem Fim

Um dia, passando as férias escolares na casa de meus avós maternos, no Jardim Peri, acabei me desentendendo com uma prima de terceiro grau que eu mal conhecia (coisa de crianças pré aborrecentes) e de noite recebi o seu telefonema, furiosa, do outro lado da linha me contou um segredo de família que eu não sabia, ela disse: “BIXA, VOCÊ É ADOTADO!”.

Na época isso fez uma explosão em minha cabeça e coração e apesar de já ter visto sobre adoções em filmes e novelas, é diferente quando você vivencia na pele uma situação de descoberta tão profunda sobre a própria existência.

Comecei a ficar atento aos sinais. Eu pensava em várias coisas, tipo, com que direitos alguém deve esconder de nós a realidade de nosso próprio nascimento? Depois eu pensava quem poderiam ser meus pais de verdade, depois no motivo deles terem me abandonado, e etc. Eu sanava em lágrimas as minhas próprias interrogações, muitas vezes escritas e amassadas.
Passei anos sabendo da verdade e nunca a cobrei. Por amor e respeito. Meu pai adotivo caiu no alcoolismo logo após eu surgir em sua vida, quando fiz cinco anos de vida, ele faleceu. Época em que minha mãe estava grávida de seis meses de meu irmão e na dor pariu-o prematuramente. Cuidou sozinha de nós quatro: eu, meus irmãos e dela mesma. Sozinha completamente não, pois com dois empregos nas costas para nos sustentar, quem acabava cuidando de mim era a rua, a tia, a vizinha… E eu mesmo. Aprendi a cozinhar ainda moleque, observando minha irmã preparar o jantar. Fomos criados juntos, mas somos bem diferentes. Na época eu não gostava disso, hoje eu lido muito bem. Os principais valores eu aprendi com elas. Honestidade, caráter e coragem.

A parentaiada se achava esperta me comparando com minha irmã, nossos traços na feição, eu ficava sem graça mas aguentava firme e forte mesmo sabendo que havia um vão na nossa fraternidade. Eu achava desnecessário as comparações fúteis. Desde criança gosto das diferenças, apesar das podas que sofri. Pensava que para ser aceito eu deveria ser igual aos outros e, assim fui.

Com o passar da aborrecência tornei-me revoltado: Mesmo eu me sentindo “grande” ninguém vinha falar comigo sobre a minha história. Eu não tinha coragem de perguntar, me sentia estranho, invasivo, desrespeitoso caso eu questionasse… Uma sensação estranha e inédita dentro do meu contexto. A revolta me trancava no quarto. Então senti a necessidade de escrever poesias sobre abandono e adoção. Poesias que eu não revelava para ninguém. Era o meu tesouro, meu segredo, a ultima matéria do meu caderno era como um pote de ouro. Eu escondia meus textos porque eles representavam meus segredos mais íntimos. Até o terrível dia em que minha mãe não só os leu como mostrou os textos para uma tia, que me levou num psicólogo por achar que os escritos eram a razão de uma revolta. Elas não tinham sensibilidade de notar que a poesia me acolheu. Hoje em dia percebo que minha mãe não confiou na arte literária como um porto seguro para mim. De fato ela deve ter crescido muito mais podada pelos pais dela do que tentou me podar. Eu não tinha maturidade de entender isto e quis fugir, quis sumir, estava crise com tudo e todes.

Me distanciei aos poucos de casa, bairro e parentes. Arranjei um emprego qualquer, me tornei um escroto comum, e me entreguei a uma vida fácil, fiz com o mundo o que o mundo fez comigo: comecei a faltar, rir de piadas toscas, mentir, até nas coisas simples… e fui sucumbindo sem ninguém sequer perceber.
Quando notaram eu já cheirava mais do que bebia! [Cair naquela merda daquela droga me afundou. E ali ninguém queria saber de mim. Nem eu.

Com 15 anos tentei me enquadrar no mundo para agradar gente completamente oposta a minha fé. Eu escrevia poesias para mim mesmo e estudava para tentar ser rico e sair da periferia que tanto me maltratou e julgou.

Trabalhei durante anos em várias empresas no Centro de São Paulo, e após o expediente perambulava bêbado pelas ruas com litros de vinho no punho e sem destino. Na faculdade eu ia por status. No fundo eu achava aquele ambiente universitário o fim! Em dias de prova eu me sentia um otário! Em dias de pagamento eu pagava a mensalidade da faculdade com um aperto no peito e o que sobrava eu bebia nos bares da falida Barra Funda com colegas profissionais tão perdidos quanto eu.

Dos 15 aos 25 eu caí dentro da mentira universal: O exemplo, hétero normativo; com carteira profissional registrada; a bíblia na mesa de trabalho que eu nem lia; andava com gente pseudo-descolada-capitalista; bebia muito, fumava cigarros black achando que tava abalando e cheirava um pó lascado da Santa Cecília andando sempre em grupos com gente que nem o meu nome sabia. O cotidiano Central me descolou da quebrada e passei a conhecer gente de outras culturas… gente boa e ruim. Ali eu compreendi que nem sempre as pessoas ruins são as que mais sofreram. Conheci gente que tem de tudo: pais leais, casa, estudo, alimento de tudo, carro, viagens, e mesmo assim eram viciadxs infelizes competidores.
A rotina sem disciplina me fez dar PT num automóvel após eu capotá-lo saindo da marginal Tietê para um happy hour. Eu nasci de novo após o acidente e pude refletir muito… Saí do emprego e fiquei distante de muitas pessoas, coisas e lugares. Abdiquei as drogas. Passei dias sem sair de casa. Resolvi mudar o meu quarto.

Na bagunça me deparei com dois cadernos do ensino fundamental. Eram os únicos que não tinham ido para o lixo. Neles haviam textos meus de quando criança. Numa das folhas havia uma mensagem dizendo para eu me cuidar que tudo ia certo quando eu crescesse. Entrei em profunda conexão mix de emoções, alegria e libertação comigo mesmo, ao ler o recado da criança que fui para o adulto que me tornei. Bateu forte na consciência! Eu percebi que não há ninguém além de mim capaz de cuidar deste bem precioso que é o meu corpo e alma, cheias de lembranças doídas transformadas em compreensão, aceitação e sentimentos bons escrevíveis.

Na solidão fiz parceria com a arte e me apaixonei por ela! Encarei o tempo. Aos 26 anos me reencontrei e me reconheci, me acolhi como eu nunca senti acolhido. As coisas começaram a melhorar dali em diante. Juntei meus textos mais valiosos, me certifiquei de que são poesias marginais e realizei um dos meus sonhos: contar histórias reais. Fiz este site e depois lancei o meu primeiro livro, de maneira totalmente independente, chamado “Outra Realidade – A Arte Liberta!”. Eu escrevo para viver e quero ser lido para fortalecer. Fortalecer-me ao fortalecer-te.

Ô transformação bonita a poesia fez em minha vida! Eu passei a me ler; O primeiro livro que eu aprendi a ler na vida foi o livro de minha própria história maluca. Livro este que não tem fim, porque cada uma das pessoas que passam por minha vida vai levar consigo um verso.

Na poesia eu também aprendi que a minha história se conecta com a de minha terra, de meu Brasil. Somos todos adotados por filosofias e dogmas que, na real, não são da gente e tenta nos representar. Eu sou a minha própria cura!

Eu vim para transFormar o meu mundo e dedico esta crônica marginal a todxs as pessoas que foram abandonadas, a todxs que foram adotadxs e a todxs as mulheres guerreiras mães de todos os filhos carentes.

 

No céu, o melhor lugar será das mães.

Diego Rbor

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s